O debate contemporâneo sobre ciências e humanidades tem se tornado algo imprescindível no fazer do sistema educativo, da pesquisa cientifica e humanística. Hoje já não podemos pensar sobre a natureza, a vida e a humanidade sem levar em conta as descobertas que se iniciaram com a cibernética, a epistemologia genética, a computação, os sistemas auto-regulados, adaptativos e autopoiéticos, as ciências da organização e os renovados processos comunicativos. A profundidade dessas descobertas vai além de suas claras manifestações científicas e técnicas: inclui novas formas de pensar e atuar que compreendem as chamadas ciências da complexidade e as tencnociências[2].
O impacto dessa nova revolução científica altera profundamente nossa divisão e articulação do trabalho intelectual, das humanidades, das ciências, das técnicas e das artes. Obriga a re-determinar, neste inicio de século XXI, uma nova cultura geral e novas formas de cultura especializadas com interações e campos limitados. Impõem-nos a pensar em novas articulações entre disciplinas, a irromper com os “murros” das especializações tradicionais e a construir espaços novos de ensino-aprendizagem, através da construção de metodologias que alcance processo interacionais indispensáveis para o apreender e o ensinar hoje.
Nesse momento em que a interdisciplina gera novos vínculos entre as ciências e a humanidade, os vínculos anteriores – alguns muito antigos – também se renovam. Vale aqui questionar-nos qual o papel da interdisciplinaridade nos processos educativos contemporâneos? E qual a sua contribuição efetiva e afetiva nas metodologias, até então adotadas nas instituições de ensino e pesquisa?
A interdisciplina, portanto, requer a interação entre fatores, antes “isolados” em seus processos produtores de conhecimento para gerar uma nova cultura do fazer e do apreender técnico e científico. Porém, apesar de parecer um fenômeno acadêmico, a interdisciplinaridade vai muito além do que isso. Na verdade está ligada a tecnociência, que, por si só, corresponde ao vinculo das disciplinas científicas e tecnológicas.
No curso de Comunicação Social – habilitação em Relações Públicas do IESAM, a interdisciplinaridade faz parte da concepção e da visão institucional - pedagógica. Essa prática permeia todo o processo de ensino-aprendizagem desafiando professores e alunos na árdua tarefa de partilha e construção do conhecimento. Desde o primeiro ano do os alunos produzem e realizam atividades interdisciplinares. Em geral aplicamos a seguinte metodologia:
Durante o planejamento estratégico do curso definimos no colegiado os temas, os professores coordenadores e a metodologia que abordaremos nos trabalhos interdisciplinares de cada semestre. Os docentes inserem nos seus respectivos planos de ensino os conteúdos inerentes aos projetos;
No início do semestre apresentamos os temas e discutimos com as turmas (alunos, professores e coordenadores de curso e de projeto experimental) a estratégia de implementação das atividades concernentes aos projetos interdisciplinares;
Nos dois primeiros meses do semestre, cada professor desenvolve o conteúdo programático da disciplina oferecendo elementos para teóricos e conceituais relativos aos temas dos projetos;
Depois da primeira avaliação bimestral, definimos os grupos de trabalho e a empresa-cliente onde será realizado o projeto interdisciplinar (cada equipe possui uma empresa-cliente). O foco principal é desenvolver práticas interdisciplinares que possibilitem um diálogo permanente entre o acadêmico e o empresarial (mercado). Por exemplo, abordamos temas como Pólos turísticos no Pará: meio ambiente tecnologia e desenvolvimento – neste caso os alunos, divididos em grupos, vão a campo compreender a natureza econômica, geográfica, ambiental, social e política dos pólos turísticos paraense. Para tanto desenvolvem pesquisas junto a Paratur (Companhia de Turismo do Pará) e visitam alguns lugares para compreender o modo de vida e a cultura dos atores sociais. No decorrer do trabalho, alunos e professores percebem que todas as disciplinas se encontram e são necessárias para desenvolver habilidades e aptidões acadêmicas e mercadológicas. Outros temas que abordamos: o sócio-ambiental nas empresas; pesquisa de opinião, como ferramenta de RP; Pesquisa Econômica e Desenvolvimento Sustentável; Relações Públicas Comunitárias, Eventos e Marketing no terceiro setor. Todos os trabalhos se realizam a partir de uma organização e/o instituição do mercado de trabalho – nesse processo os alunos exercitam relações públicas institucionais, atendimento, pesquisa, análise de textos e aprofundamento teórico. As equipes apresentam um produto como resultado final do projeto;
Todos os professores se envolvem, pois é também um exercício para que os docentes percebam a importância do seu conteúdo na formação acadêmica e profissional do aluno;
Os trabalhos são apresentados na forma escrita e oral, atendendo aos requisitos básicos de produção de um trabalho acadêmico;
Esses trabalhos servem de referência e até são assumidos por vários alunos, como trabalhos de conclusão de curso, os projetos experimentais.
[1] Mestre em sociologia, Relações Públicas e coordenador de Projetos Experimentais do curso de RP do IESAM.
[2] CASANOVA, Pablo González. As novas ciências e as humanidades: da academia à política. São Paulo: Boitempo, 2006.
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